sábado, 3 de março de 2012

Good morning Vietnam! E PIMBA! Enganado outra vez...

Bom dia Hanoi!

Cheguei faz 3 dias e finalmente tenho tempo de absorver a realidade.
Desde que cheguei tenho vivido entre choques e ignorância, TUDO é diferente, a realidade acontece mais devagar, mas nunca se para de avançar. O compasso da vida não é constante, oscila entre o dolce fare niente das horas de almoço e o caos total das barragens de motas que travam as ruas.

Ao sair do avião senti a distancia de casa. Estou no outro lado do mundo, bem por detrás do sol posto!
É um aeroporto pequeno e com muito pouco movimento mas todos parecem empenhados em levar as suas tarefas muito a sério. Não há sorrisos, nem na cara dos que aqui trabalham nem na dos que acabaram de aterrar.
Por detrás das portas de vidro estão táxis, mas não tenho coragem de sair ainda. Espero alguns minutos e troco alguns dólares por Dong. Tenho dinheiro para comprar o cartão para o telemóvel e telefonar ao meu futuro chefe. Ele já está a caminho e fico a saber que só tenho de esperar mais alguns minutos. Está quase!
Este canadiano, é dono da Wulven Studios, tem 1,90 e destaca-se claramente da população local. Percebo logo que está preocupado por não me encontrar mas decido faze-lo sofrer mais um pouco, é reconfortante ver uma expressão familiar...
Ganhei coragem para sair do aeroporto e fumar um cigarro enquanto ele me procura. Que maldade! Mas não resisti.Não é todos os dias que o nosso chefe nos espera no aeroporto com uma placa com o nosso nome. Lindo!
O ar húmido e o céu nublado são diferentes de qualquer outra coisa que vi até hoje, mas a temperatura é familiar. É como uma primavera sem sol.

Finalmente decidi acabar com o sofrimento do Kyle, telefonei-lhe e disse-lhe que estava na rua. Vejo claramente que está preocupado em fazer-me sentir em casa, mas não tem muito jeito. Pouco importa, tudo o que espero dele é que tente ajudar e evidentemente está disposto a tudo o que lhe peço. Começo a ganhar confiança para enfrentar o primeiro contacto com as equipas que vou gerir.

Quando chegamos ao hotel, digo-lhe que vou tomar o duche rápido e que apesar de estar muito cansado quero conhecer as equipas hoje. É obviamente uma tentativa desesperada de não pensar em tudo o que deixei do outro lado do mundo e apesar do meu esforço para o esconder, ele percebe com a clareza de quem já viveu a mesma situação. Noto muito facilmente que ele preferia ter-me a descansar, mas ficou sem coragem para me dizer que não.

Esvaziar as malas, duche, barba, noodles para o pequeno almoço, arregaço as mangas, esqueço-me do casaco e aqui vou eu! O desafio começa já!
Claro está, que assim que saio para a rua o ímpeto esmorece. Nem sei para que lado ir, nem tenho coragem de atravessar a estrada. Que ridículo! Tenho de fazer alguma coisa! Volto para o quarto, procuro no mapa, pego no casaco, esqueço-me do telemóvel, do dinheiro e de todos os pingos de juízo que ainda me restam, encho o peito e atiro-me para a estrada na esperança de que a parede de motas magicamente abra um buraco para mim. Cheguei ao outro lado? WOW! Vou para o escritório, perco-me duas vezes, esbarro em três vendedores de rua e finalmente o Kyle chama-me do outro lado da estrada. Cheguei! Menos mal...

Olho em volta e a julgar pelo aspecto das redondezas penso que o escritorio é terrível. E PIMBA! Muito enganado estava eu!
O escritório é fantástico, tem 6 andares, mais um onde o Kyle vive. É grande e repleto de vida.
Sou apresentado piso após piso como o novo papão que vai andar a pressionar toda a gente, mas todos parecem felizes por me ver. Fala-se inglês aqui, mas é muito difícil entender, o sotaque é absurdamente serrado. As dificuldades de comunicação são abissais e o Kyle percebe imediatamente. Pede á esposa que me ajude. Sobrevivo com esta ajuda ao primeiro dia.

Segundo dia, não me esqueci de nada, atravessei a estrada confiante, tomei um pequeno almoço local(absolutamente fantástico) e chego ao escritório as 9 em ponto. Vamos a isto!
São 10 da manhã. Já existe uma tradutora contratada, reuniões marcadas com todas as equipas, secretária preparada, 12 projetos novos e tudo ainda por fazer.
Vai ser um dia em cheio, penso eu.
E PIMBA! Enganado outra vez! Mesmo com a tradutora as reuniões acontecem muito devagar e consomem muito tempo. Estou a ficar para trás.

Terceiro dia, hoje é que vai ser! E PIMBA! Enganado outra vez!
Escritório, tradutora, reuniões, atualizar todos os projetos, reportar ao Kyle, planear a próxima semana, discutir novamente com o Kyle, esquecer-me do almoço, discutir com a principal equipa, virar tudo do avesso e começar tudo outra vez! Esgotante!
Estou exausto, parece que nunca vou conseguir.
Já são 7 horas e todos já se foram embora, isto está difícil, pensei eu.
Peito cheio de novo e atiro-me para a guerra. É sexta-feira e posso me deitar tarde. Só paro quando tiver tudo feito! Desta é de vez!
E PIMBA! Enganado outra vez! O Kyle desce e temos a primeira conversa difícil. A Thao, como boa esposa vietnamita, ouve e junta-se á festa. A conversa demora, estou já cansado e sem paciência, mas vou-me aguentar ao tranco. E PIMPA! Enganado outra vez! Perco a estribeiras e atiro dois berros para o ar! Chega! Agora falo eu!
Grito todas as frustrações! É uma tarefa hercúlea, as equipas estão um caos, não há controlo de qualidade, são muitos projetos e muito complexos, o inglês deles é uma merda! Insulto, esperneio e torno a insultar mais alto ainda!Vou ser despedido de certeza! É agora! Já está! E PIMBA! Enganado outra vez! Os olhos da Thu envermelham-se, o Kyle baixa a cabeça alguns segundos e estende-me a mão enquanto me pergunta se vou desistir. Digo-lhe que ainda não desisti até hoje e não tenho a menor intenção de começar agora! A Thao dá-me uma abraço lacrimoso, o Kyle aperta-me a mão forte e cresce-me um aperto no estômago que me deixa sem saber o que fazer.

Estava muito enganado acerca de tudo. Tudo o que me pedem é que lute, mais nada. Percebo que a guerra afinal não é minha, é a nossa guerra! Estamos juntos! Podemos ganhar ou perder, mas ganhamos juntos ou perdemos juntos! Que lição de humildade! Que murro no estômago!
No inicio do dia éramos 3 pessoas a tentar fazer o melhor possível, 8 horas depois somos uma equipa difícil de separar.
E PIMBA! Volto para o hotel como saí de manhã, enganado outra vez...

Isto é Hanoi, uma cultura única, uma cidade louca, onde as contradições são a forma de avançar e onde tudo o que se faz é um turbilhão de emoções, uma lição de humildade constante. É um local onde é difícil terminar o dia sem o nó no estômago e uma lágrima no canto do olho, e isso é bom! Quer dizer que foi um bom esforço, que o descanso é merecido e que pela manhã vamos ter o privilegio viver tudo outra vez.

Boa noite Hanoi, enganamo-nos amanhã outra vez...